De quando a filosofia e a literatura infantil estão a brincar juntasRosângela Trajano
“Como a filosofia nos ensina a viver e como a infância tem sua lição tanto quanto as outras idades, por que não no-la comunicam?”
Montaigne, apud Cecília Meireles
Contentar-nos com histórias de príncipes e princesas, feiticeiras e dragões, como se fossemos ainda crianças. Maravilhar-nos com o encanto das entrelinhas que só conseguimos vislumbrá-lo quando tomados por uma sabedoria lapidada pelos caminhos da filosofia. Abro as janelas da minha morada, com cortinas recém-costuradas, mas cheias de desejos de uma investigação filosófica na literatura infantil. Parece-me que há muito minh’alma está irrequieta, há algo na literatura infantil que faz furinhos nas meias do meu pensamento crítico e investigativo.
Busco na literatura infantil considerações filosóficas que brotam do imaginário do autor, mas que retratam a realidade que nos cerca. Esta realidade vestida de dúvidas e incertezas. É preciso saber prender o pequeno leitor, despertar seu interesse pelo pensar, fazê-lo pensar, questionar e criticar. Existem ótimas histórias na nossa literatura que transmitem a base para um ensino filosófico com crianças. Acredito que toda literatura é bem-vinda quando sabemos explorar dela aquilo que nos desassossega o espírito. Deixemos as nossas crianças escolherem o que querem ler, permitamo-nos ser ouvintes e não contadores de histórias, pois o abrir caminhos é uma arte que poucos sabem desenvolvê-la.
A literatura infantil e a filosofia brincam juntas quando conseguimos fazer costuras com agulhas de mão sem usar o dedal, ou seja, quando nossa imaginação ganha asas e constrói em cima delas um pensar adiante, um pensar que edifica ou reconstrói conceitos. A filosofia embala seus mais belos versos em temas metafísicos que são colocados a todo instante pelas crianças. São elas eternas questionadoras, querem saber de tudo, buscam respostas e nunca estão plenamente satisfeitas. Colocar a filosofia e a literatura infantil para brincarem juntas é fortalecer um laço que muitas vezes se desfaz por falta de uma observação mais cuidadosa entre leitor e ouvinte. Temos na literatura infantil histórias que encantam pelas suas magias, que distraem pela beleza de suas metáforas, que nos fazem rir e chorar com desfechos imprevisíveis. Trazem estas histórias considerações filosóficas que observadas mais detalhadamente poderão transmitir às nossas crianças uma nova visão de mundo, uma nova observação das coisas ao nosso redor, uma sede pelo saber.
Não pretendo neste estudo me deter em um ou outro autor, pois para mim todas as histórias infantis trazem um pouco de filosofia, algumas apresentam estes conceitos de forma clara e objetiva, outras preferem colocar o leitor para procurar o grilo da primeira a última palavra. Como se dá esse brincar entre a filosofia e a literatura infantil? Quando a essência da história constitui elementos de interpretação filosófica que atraem o pensamento da criança para uma abordagem onde imaginação e realidade se abraçam e trocam olhares num sentir o que não foi dito, mas percebido. Esse ato de perceber é próprio da criança que ao término de um passeio por uma história infantil caminha em busca de respostas quase nunca encontradas. Cabe a filosofia esclarecer questões que são construídas nas histórias infantis e rebuscam a memória das nossas crianças. Sem a filosofia a literatura infantil pode até existir, mas será como o gesto físico do sorrir sem o prazer da alma.
Para ilustrar melhor o que queremos apresentar neste estudo buscamos nos versinhos atribuídos à Bárbara Heliodora o que significa esse encontro da filosofia com a literatura infantil:
“Meninos, eu vou ditar
as regras do bom viver;
não basta somente ler,
é preciso meditar,
que a lição não faz saber:
quem faz sábios é o pensar.”
É neste pensar referido acima que devemos nos preocupar. Por isso não basta somente fazermos as crianças lerem, é preciso saber conduzí-las ao exercício do pensamento. Aqui abrimos as portas à filosofia, pois a ela é dela a honra de criar sábios através dos seus ensinamentos. Se levássemos mais a sério o que as crianças nos dizem sobre os seus pensamentos poderíamos conhecê-las mais e melhor. Através da literatura infantil a criança descobre seu mundo exterior, para que tal descoberta não entre em conflito com a do mundo interior faz-se necessário que a filosofia seja buscada e aplicada de forma carinhosa sem invadir os mistérios que rodeiam os pensamentos da criança.
A criança sonha com um livro que traduza sua inquietude e sacie plenamente seu interesse. Deixemos que a criança escolha sua leitura, pois só ela vai saber identificar o que é de seu interesse. Não precisamos sair correndo por aí feitos loucos desesperados a procura de livros infantis que tenham considerações filosóficas, pois não os encontraremos. Devemos, sim, saber retirar desta literatura algo que se aproxime da filosofia. Temos muitas histórias infantis que tratam de temas, tais como: liberdade, justiça, morte, Deus, etc., as crianças quando estão lendo estas histórias costumam levantar questões sobre tais temas, e nós admiradores da sabedoria não podemos simplesmente respondê-las e pronto, nossa tarefa é transformar cada pergunta levantada numa outra pergunta de forma que a resposta seja encontrada na própria criança.
Na literatura infantil temos ainda a poesia, aquela que corteja a imaginação da criança e respeita seu espírito aventureiro. A poesia que coloca as letras para bailar, que abre janelas em casas nunca antes construídas, que fala da natureza e também dos sentimentos. Ah! Esta maravilhosa poesia! Faz festa nos olhos das nossas crianças com as suas rimas bem elaboradas, suas metáforas bem colocadas e acima de tudo seu jeito valioso de transmitir conhecimento e vontade de saber às crianças. Nela, nos deparamos com uma leitura que deságua nos sorrisos das crianças, colocando em seus lábios questões desafiadoras à filosofia.
Vivo a contar histórias para crianças. Surpreende-me que antes mesmo do término da contação, algumas crianças me façam perguntas que quase sempre não tenho respostas. Muitas vezes recorro à filosofia, noutras as perguntas são tão metafísicas que jamais encontrarei respostas. O que quero dizer aqui, é que se soubermos explorar este pensamento inquieto através da literatura infantil e mais ainda se soubermos acrescentá-lo a filosofia estaremos formando cidadãos se não sábios pelo menos donos de um pensamento próprio.
Na literatura infantil, as crianças percebem o mundo como ele realmente o é, ou seja, as histórias têm sempre um personagem que vai se parecer com a história de vida de uma delas. É bem verdade que essas histórias são cheias de encantos e magias, mas toda expressão de sentimentos desenvolve nas crianças o desejo de sonhar. Quando usamos a filosofia nestas histórias mostramos às crianças não só os conceitos dos sentimentos, mas principalmente a essência que cada um deles tem. Assim, se uma história trata da amizade entre duas pessoas, a filosofia cuidará de despertar nas crianças o que elas realmente pensam sobre amizade, daí surgindo as mais diversas questões.
Concluo que a filosofia e a literatura infantil só têm a acrescentar mais alegria, esperança e sabedoria às nossas crianças. Pois a união das duas é fonte de riquíssimo conhecimento não só da leitura de uma história infantil, mas da descoberta de uma alma que mora num lugar secreto e só aparece aqueles que ousam enfrentar dragões e feiticeiras, e buscar nas profundezas das palavras escritas o piscar de olho e o barulho das trombetas anunciando que as histórias são como bonecas de pano, uma vez rasgadas, é só remendá-las; histórias uma vez amadas, para sempre serão lembradas. Logo, podemos dizer que a literatura infantil e a filosofia podem ir para casa brincar de ciranda, cirandinha ou de amarelinha, pois já demonstraram a amizade que as cercam.
http://www.rosangel atrajano. com.br/filinfant il.htm